como ser nerd de verdade sem ser modinha

O que é ser nerd de verdade sem seguir modinha

Murillo Costa | 02/ago/2018

Do depreciativo ao orgulho: o que é ser nerd de verdade quando a cultura pop foi tomada pelo universo nerd?

“Ser nerd de verdade” de antigamente era encarado de forma bem diferente do “ser nerd” atualmente. O conceito se tornou popular na década de 1960, alguns anos após a revista Newsweek usar a palavra para descrever pessoas com poucas habilidades de socialização. Nessa década, “nerd” também passou a ser definição de quem gostava de ler.

Ser nerd virou sinônimo de jovens, especialmente adolescentes, encarados como intelectuais, fanáticos por assuntos impopulares como quadrinhos, livros, exatas, computação, RPG e itens colecionáveis. Junte a isso a timidez, uma vida social puco desenvolvida e a completa inaptidão aos esportes.

Acrescente um óculos de grau, cabelos penteados em corte social, camisa para dentro da calça e uma bombinha de asma no bolso: temos o estereótipo ofensivo do “ser nerd de verdade”  dos anos entre 1960 a 1990.

Mas, o jogo sempre vira. O mundo pop de nossos dias foi inundado pela cultura nerd e muitos que não fazem a mínima ideia do que é ser nerd de verdade declaram a plenos pulmões que amam Star Wars fazendo o cumprimento Vulcano de Star Trek.

Quando ser nerd de verdade se tornou orgulho

Dentro da cultura dos “valentões” das escolas norte-americanas, os nerds eram o grupo reprimido. Classificados em seu estereótipo de magrelos ou acima do peso, eram alvos fáceis de bullying e agressões.

Olhando de maneira lógica, se ser nerd está relacionado à inteligência, isso deveria contribuir para a popularidade do jovem em seu contexto social – escola, turma da rua. Mas, na verdade, isso contribuía para o inverso: ser nerd tornava a pessoa impopular e isolada.

Paul Graham, programador e ensaísta americano, diz que essa relação não deveria existir já que inteligência e sociabilidade não se entrelaçam a ponto de dependerem um do outro. Para justificar, então, a repressão ao nerd, ele disse que “a inteligência contava muito menos que aparência física, carisma ou habilidade atlética.”

Ou seja: adolescentes julgam pela capa, não pelo conteúdo. Isso muda quando o nerd e o valentão crescem. Já dizia algum empreendedor: “Seja bom com os nerds. É muito provável que você acabe trabalhando para um.”

O ser nerd vem da descoberta de identidade pessoal. É deixar de lado o estereótipo e apegar-se aos próprios gostos, tomando decisões que contribuirão para a auto-realização. Isso faz com que o nerd inseguro do ensino fundamental se torne um jovem adulto confiante, inspirando o respeito dos outros – e também o futuro patrão de seus valentões.

Mas o conceito ruim de “nerd” não mudou somente pela aceitação de seus próprios praticantes. Em 1984 foi lançado o filme A Vingança dos Nerds, que mostrou como nerds que sofreram bulying podem ser mortais num campus universitário.

nerd dos anos 70

Antes disso, em 1977, o diretor de cinema George Lucas lançou o considerado primeiro blockbuster: Star Wars – Uma Nova Esperança. O filme dispensa apresentações, mas ao nos contar uma space opera épica, comoveu uma geração inteira a se apaixonar pelo universo nerd.

O universo dos quadrinhos, das séries e dos filmes conseguiu, cada vez mais, ganhar espaço no mundo popular. A cultura nerd foi se espalhando e ganhando seguidores e admiradores, convertendo mais pessoas às suas histórias fascinantes.

Quase tudo o que é épico, desde fantasia à ficção científica, tem suas referências e bases na cultura nerd.

Ser um nerd de verdade passou a ser encarado de modo orgulhoso. E também de modo capitalista: um ótimo mercado de entretenimento no qual se investir.

Ser nerd virou modinha?

Não, a meu ver. Gostar do universo nerd, sim, virou modinha. Mas isso é ruim? Se essa popularização contribuiu para o aumento de filmes, livros, quadrinhos e outros produtos, então, não é ruim.

É claro que dói quando alguém faz o cumprimento Vulcano ao falar de Star Wars, ou diz que prefere Vingadores ao invés de Marvel. Ou ainda pergunta “quem é Loki” após ter assistido a Vingadores: Guerra Infinita. Mas, acredite, isso é bom para os nerds. É a oportunidade que temos de ensinar às pessoas sobre o universo nerd –  até criar um site e um podcast sobre isso.

Primeiro passo para ser nerd de verdade

Entenda que, em nossos dias, o termo nerd não se resume mais àquele padrão dos anos 1970. O universo se ampliou. O conceito de “nerd” ultrapassou a barreira das escolas norte-americanas e engloba toda a cultura de quadrinhos, filmes, livros e outras formas de histórias que envolvam a ficção e fantasia.

O universo nerd é gigantesco. Existem inúmeras histórias para inúmeros tipos de nerds. Qual tipo de história mais te agrada? Ficção científica? Fantasia? Suspense e terror? Super-heróis? Escolha sua vertente favorita do imenso universo nerd e seja feliz.

Unindo os conceitos, podemos entender que para ser um nerd de verdade sem seguir modinhas é preciso saber do que gosta e conhecer muito bem isso. O famoso “poser” não pega bem, seja em qual universo for.

Um nerd de verdade também é honesto com sua franquia de história favorita. Ele sabe que defender até a morte não é uma boa ideia. É necessário entender e reconhecer quando aquele filme do seu super-herói favorito não foi tão bem.

Um nerd de verdade não pratica bullying

O poder corrompe. Com todo o “empoderamento” que a indústria do entretenimento deu aos nerds nos últimos anos, lançando até mais de 3 filmes de super-heróis por ano, muitos nerds se sentiram “poderosos” o suficiente para praticarem bullying contra seu próprio grupo social.

Isso está claramente expresso na briga de “Marvel é melhor que DC” ou “DC é melhor que Marvel”. Se olharmos a nível técnico, o Universo Cinematográfico Marvel sabe contar suas histórias de um modo a ter mais sucesso do que o Universo Estendido DC. Isso é um fato. Mas, isso não torna os filmes de uma “piores” ou “melhores” do que o de outra quando nos referimos ao gosto pessoal.

O universo nerd é basicamente feito de arte. Arte é subjetiva. Isso quer dizer que o gostar ou não também é subjetivo. Ninguém está apto a dizer que algo é melhor ou pior a âmbito pessoal. Há quem gostou do final de Batman Vs Superman, mesmo que a maioria não tenha gotado. E nenhum dos “lados” está errado.

E, pasme-se, há quem não tenha gostado de Vingadores: Guerra Infinitauma pessoa dessa merece execução em praça pública, mas tudo bem.

Ser um nerd de verdade é uma construção

Ser um nerd de verdade é uma construção de caráter e personalidade. Mesmo aqueles que assistem Star Trek perguntando onde está Darth Vader merecem uma segunda chance de conhecerem de verdade o mundo nerd.

A internet, a grande praça pública da humanidade, facilita todo esse trabalho de construção do caráter nerd. É o grande tempo em que vemos a descentralização da informação da mão de grandes empresas de comunicação. Pessoas comuns – fãs, principalmente e mais importante – podem agora dizer o que pensam sobre o mundo nerd e atingir pessoas reais com sua mensagem.

É por isso que o Eixo Nerd está aqui! Confiamos na crítica especializada, mas quem melhor que os fãs para transmitir todo o sentimento que o mundo nerd passa a seus habitantes por meio do cinema, literatura e outros caminhos?


Adolescente nerd: Por Paul Ittoop – Obra do próprio, Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=2526022

Sou o autor de Os Renegados, distopia pós-apocalíptica, editor do Central Autoria e locutor do Autoria Podcast. Também sou parceiro da saga de fantasia épica A Crônica Esférica. Webdesigner por formação, procuro compartilhar meus conhecimentos em Marketing Digital com outros escritores para que possamos formar juntos nossas carreiras.
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